Dos Naipes Mamelucos ao Baralho Francês: A História dos Jogos de Cartas

Como as cartas de jogar viajaram do Oriente Médio para a Europa medieval, dando origem à iconografia dos quatro naipes e à padronização das figuras da corte.

CURIOSIDADES E PASSATEMPOS

Lucas Roqueta

10/30/2026

Os jogos de cartas parecem familiares porque o baralho francês reduziu uma longa história a quatro sinais reconhecíveis: copas, ouros, paus e espadas. Antes dessa aparência estável, porém, circularam conjuntos com moedas, taças, cimitarras, bastões de polo, figuras cortesãs e quantidades variáveis de cartas. A história do baralho é, portanto, menos uma linha reta do que uma sucessão de traduções entre oficinas, mercados, línguas e autoridades.

Neste artigo, assino como Lucas Roqueta, pesquisador de história cultural e Editor-Chefe do tudoparaomundo.com, para acompanhar o percurso entre os naipes mamelucos e a forma francesa. A evidência material é fragmentária: há cartas preservadas, registros de proibições e objetos catalogados, mas não um “primeiro baralho” intacto que resolva todas as dúvidas. Por isso, distinguirei documento, inferência e hipótese.

Contexto Histórico e Evidências

O dado mais sólido é cronológico. O catálogo do Metropolitan Museum registra que os jogos de cartas chegaram à Europa por volta de meados do século XIV, provavelmente pelo Oriente Próximo, via Veneza, ou pelo sultanato mameluco do Egito, através do sul da Itália, da Sicília ou da Espanha (The World in Play). “Provavelmente” importa: a rota exata não foi demonstrada por uma cadeia contínua de objetos.

O segundo fato é documental. Em 1367, Berna registrou uma das primeiras proibições europeias ao jogo; no ano seguinte, apareceram medidas semelhantes em Basileia, Florença, Paris, Siena e Viena. O registro de 1377 do dominicano Johannes von Rheinfelden descreveu diferentes estruturas de baralho, incluindo um conjunto de 52 cartas com quatro naipes e figuras de rei e servidores. Isso prova a rápida presença social do jogo, mas não determina qual modelo chegou primeiro.

O terceiro fato vem do próprio conjunto mameluco conservado no Topkapı Sarayı, em Istambul. A reconstrução catalogada pela World of Playing Cards descreve 47 cartas sobreviventes, distribuídas por quatro naipes: moedas, taças, espadas e bastões de polo. A série combina cartas numeradas de 1 a 10 com figuras cortesãs. A fonte também registra uma revisão importante: uma leitura anterior contou três figuras por naipe, enquanto a análise posterior questiona essa contagem. A divergência mostra por que a descrição deve ser tratada criticamente, não como inventário definitivo.

Análise Crítica do Desenho do Jogo

O desenho das cartas não é decoração separada da regra. O naipe funciona como unidade de classificação, a repetição dos sinais permite reconhecer valores e as figuras sugerem uma hierarquia social. Em cada região, a mesma lógica foi redesenhada com materiais, cores e convenções locais.

Símbolos que atravessam fronteiras

Moedas e taças aparecem em tradições islâmicas e latinas; espadas e bastões ganham equivalentes visuais em oficinas europeias. A semelhança não prova cópia direta. Pode indicar transmissão de um modelo, adaptação de sinais familiares ou convergência entre jogos de vazas, nos quais os naipes precisam ser rapidamente identificados.

Da figura escrita à figura representada

No conjunto mameluco, inscrições indicam as posições cortesãs. Em muitos baralhos europeus, rei, dama e valete passam a ser desenhados. A mudança favorece a leitura visual e a produção para públicos que não compartilham a mesma língua. A ausência inicial de damas em certas séries italianas e espanholas pode refletir uma adaptação de modelos islâmicos, mas a causalidade permanece hipótese, não fato demonstrado.

Economia, cor e padronização

Por volta de 1480, os sinais franceses — piques, cœurs, carreaux e trèfles — permitiram trabalhar essencialmente com vermelho e preto. Essa economia gráfica ajudou a reduzir custos e favoreceu a difusão, segundo a história das cartas francesas compilada a partir de exemplares da Bibliothèque nationale de France. A padronização não foi instantânea: Lyon, Paris, Rouen e Provence conservaram retratos regionais, e a fiscalização posterior tornou certos desenhos reconhecíveis.

“Card games were introduced to Europe about the middle of the fourteenth century, probably from the Near East via Venice or from the Mamluk sultanate in Egypt.” — Timothy B. Husband, The World in Play, Metropolitan Museum of Art.

Mito vs. Fato

Mito: o baralho de 52 cartas nasceu pronto no Egito mameluco. Fato: o conjunto do Topkapı oferece uma estrutura próxima, com quatro naipes e provável total de 52 cartas, mas está incompleto e sua datação precisa é discutida.

Mito: copas, ouros, paus e espadas são símbolos universais desde a Antiguidade. Fato: eles são uma solução francesa tardo-medieval, difundida internacionalmente depois; os conjuntos anteriores variavam em número, sinais e figuras.

Mito: o tarô foi a origem de todo baralho comum. Fato: o tarô acrescentou trunfos a tradições de cartas já existentes; na França, chegou da Itália na primeira metade do século XVI, conforme a documentação reunida pela BnF e por catálogos especializados.

Evolução das Regras e Linha do Tempo

Não há uma regra única que atravesse oito séculos. A tabela abaixo compara evidências de forma, circulação e jogo, sem converter lacunas em certezas.

Comparação histórica em pontos-chave:

  1. Período: Século XIV; Evidência principal: Proibições em Berna, Paris e outras cidades; tratado de 1377; Estrutura ou regra provável: Baralhos com quatro, cinco ou seis naipes; jogos de vazas e apostas; Grau de segurança: Alto para a existência; médio para as regras

  2. Período: Século XV; Evidência principal: Cartas mamelucas do Topkapı; folhas italianas e alemãs; Estrutura ou regra provável: Naipes identificáveis; figuras cortesãs e séries numeradas; Grau de segurança: Alto para os objetos; baixo para a conexão direta

  3. Período: 1430–1540; Evidência principal: Cartas de luxo estudadas pelo Metropolitan Museum; Estrutura ou regra provável: Variação regional de símbolos, hierarquias e quantidade total; Grau de segurança: Alto

  4. Período: Fim do século XV; Evidência principal: Exemplares franceses e registros da BnF; Estrutura ou regra provável: Piques, copas, ouros e paus; uso de duas cores; Grau de segurança: Médio-alto

  5. Período: Século XVI; Evidência principal: Expansão de Lyon e Rouen; tarôs franceses de origem italiana; Estrutura ou regra provável: Baralho comum separado dos trunfos do tarô; Grau de segurança: Alto para a circulação; variável para as partidas

  6. Período: Séculos XVII–XVIII; Evidência principal: Éditos franceses e desenhos regionais fiscalizados; Estrutura ou regra provável: Marcas de fabricante, impostos e retratos reconhecíveis; Grau de segurança: Alto

A cronologia também revela um paradoxo: quanto mais o baralho se torna eficiente e barato, menos sua imagem parece histórica. A padronização apaga diferenças locais, mas cria uma linguagem visual portátil. Para acompanhar outras transformações culturais, vale consultar a origem e as variantes.

Aplicação Prática e Preservação do Acervo

Preservar cartas é tratar cada exemplar como documento de uso e fabricação. Papel, pigmento, cola, corte, verso e marcas de manuseio informam tanto quanto o desenho. O conjunto do Topkapı deve ser lido com sua incompletude e procedência incerta, não como fotografia transparente de uma partida medieval.

Em acervos domésticos, mantenha as cartas longe de luz direta, umidade, calor e PVC. Não lamine nem limpe agressivamente. Fotografias, dimensões, inscrições, proveniência e o verso — às vezes reaproveitado como bilhete ou marcador — conservam informação sem substituir o original.

Curiosidades e Arquivos Ocultos

Um registro de 1392 informa que Jacquemin Gringonneur recebeu pagamento por três baralhos dourados, coloridos e ornamentados para o rei francês. As cartas não sobreviveram; sabemos do trabalho pelo documento, não pelo objeto.

A Bibliothèque nationale de France conserva cartas de Lyon, de 1485–1496, com luas crescentes e figuras de rei, dama e valete. Elas lembram que o “sistema francês” não surgiu como uma troca instantânea: houve formas intermediárias e repertórios hoje desaparecidos.

Em 1583, um édito francês sobre cartas, tarôs e dados justificou a tributação em linguagem moralizante, associando o jogo a fraude, pobreza e desordem. O texto é raro porque registra simultaneamente política fiscal, medo social e a escala econômica de uma atividade já disseminada (Édict du Roy sur les cartes, taros et detz).

Conclusão

A passagem dos naipes mamelucos ao baralho francês não deve ser contada como invenção isolada, mas como cadeia de traduções. Moedas, taças, armas e bastões viajaram; oficinas europeias alteraram seus contornos; governos taxaram e regularam; jogadores transformaram sinais em regras. A evidência mais forte sustenta uma circulação afro-euro-asiática a partir do século XIV. A origem exata de cada símbolo e a rota precisa do conjunto mameluco continuam abertas.

O baralho moderno é, assim, uma tecnologia cultural de síntese. Sua aparência simples concentra comércio, escrita, religião, fiscalidade, artes gráficas e conflito moral. Ler suas cartas historicamente é devolver espessura a objetos feitos para desaparecer depressa sobre a mesa.

VAMOS JUNTOS!

REFERÊNCIAS EXTERNAS

  1. The Metropolitan Museum of Art — The World in Play: Luxury Cards, 1430–1540

  2. World of Playing Cards — Mamluk Playing Cards

  3. Wellcome Collection — Mamluk playing cards, L. A. Mayer

  4. World of Playing Cards — French Playing Cards

  5. Bibliothèque nationale de France — Cartes à jouer d'un jeu au portrait de Lyon

  6. Bibliothèque nationale de France — Édict du Roy sur les cartes, taros et detz

  7. JSTOR — Michael Dummett e Kamal Abu-Deeb, “Some Remarks on Mamluk Playing Cards”

  8. Yale University Library — Cary Collection of Playing Cards